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Em dois meses, Abel vai de desacreditado a concorrente ao título no Inter; entenda motivos

Postado em 12/01/2021 por

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Técnico vence turbulência, se recupera de Covid-19 e cola no São Paulo para reconquistar o Brasileirão ao Colorado após 42 anos. Confira análise e a opinião de comentaristas

Abel Braga e Inter parecem feitos um para o outro. Após uma ruptura traumática com a saída de Eduardo Coudet para o Celta de Vigo, o clube foi atrás do ídolo. Líder das grandes conquistas, chegou sob desconfiança pelos trabalhos recentes em Flamengo, Cruzeiro e Vasco. Após um início tortuoso, mudou o esquema, apostou nos garotos e voltou à lutar pelo título do Brasileirão.Um treinador histórico, com o respeito e carinho de todos. É normal um tempo para se adaptar ao trabalho, mas retomamos. Reativou o bom futebol e nos coloca vivos. Nunca deixamos de acreditar e vamos com tudo.— Marcelo Lomba, goleiro do Inter

No último domingo, Abelão completou dois meses da mais recente passagem pelo Beira-Rio. Como presente, uma vitória por 1 a 0 sobre o Goiás, a quinta consecutiva no Brasileirão. Feito até então inédito nesta edição do nacional.

O resultado ainda aproximou o time do São Paulo, que perdeu o segundo jogo seguido (1 a 0 para o Santos após tomar 4 a 2 do Bragantino). Agora está a três pontos da equipe de Fernando Diniz (56 a 53) e com um confronto direto no Morumbi em duas rodadas.

Frases, insucessos e coronavírus

Apesar do vasto currículo, principalmente no Beira-Rio, os últimos trabalhos de Abel o colocavam em xeque. Não conseguia repetir o brilho de antes do drama familiar enfrentado em 2017. Torcedores torciam o nariz para ser o substituto do saudado Eduardo Coudet.

Em 2019, foi o escolhido para comandar o endinheirado Flamengo. Porém, o time ficou longe das expectativas e, ao saber que a direção negociava com Jorge Jesus, deixou o Ninho do Urubu.

Escolhido para evitar o rebaixamento do Cruzeiro no mesmo ano, deixou o time mineiro antes do fim do Brasileirão por não mudar o panorama. Em 2020, permaneceu apenas três meses no Vasco.

Mas a saída de Coudet do Inter foi inevitável no início de novembro. A mudança abalou o vestiário. O argentino, apesar das constantes reclamações de um “grupo curto” e reiterados pedidos de reforços, tinha o domínio do ambiente. Então, o time caiu de produção.

Jogos de Abel à frente do Inter

  • Inter 0 x 1 América-MG – Copa do Brasil
  • Santos 2 x 0 Inter – Brasileirão
  • América-MG 0 (6) x (5) 1 Inter – Copa do Brasil
  • Boca Juniors 0 (5) x (4) 1 Inter – Libertadores
  • Inter 2 x 1 Botafogo – Brasileirão
  • Inter 2 x 0 Palmeiras – Brasileirão
  • Bahia 1 x 2 Inter – Brasileirão
  • Ceará 0 x 2 Inter – Brasileirão
  • Inter 1 x 0 Goiás – Brasileirão

Ao chegar a Porto Alegre em 10 de novembro, Abel admitiu que a situação era inusitada. Os discursos, aliás, começaram a chamar atenção. Em uma entrevista, reconheceu que não conhecia todo o grupo colorado, e uma afirmação sobre o jovem Peglow chamou atenção.

A estreia foi com derrota por 1 a 0 para o América-MG, no Beira-Rio, pela Copa do Brasil. No jogo seguinte, novo revés. Desta vez pelo Brasileirão, quando levou 2 a 0 para o Santos na Vila Belmiro.

A primeira vitória ocorreu na terceira partida. No jogo de volta das quartas da Copa do Brasil, o time devolveu o 1 a 0 sobre o América-MG e levou a decisão para os pênaltis. Acabou eliminado.

Após a partida, Abel deu mais uma declaração polêmica. Questionado sobre a predileção por jogadores mais experientes, como Rodinei e Leandro Fernández, soltou:

– Não tem tática. Não tem estratégia. Coloquei uma equipe mais experiente por causa do grau de dificuldade do jogo.

Sem conseguir fazer o time produzir, Abel ainda contraiu o coronavírus. Com 68 anos e considerado grupo de risco, precisou ficar afastado de quatro jogos. O Inter acumulou dois empates e duas derrotas.

O início da retomada

O retorno de Abel ocorreu contra o Boca, na Bombonera, após derrota por 1 a 0 em Porto Alegre pelas oitavas de final da Libertadores. O retrospecto recente e o favoritismo argentino seriam os obstáculos a superar.
Abel surpreendeu na escalação, o jovem Praxedes virou titular, e o Inter comandou as ações. Venceu por 1 a 0 com sobras, mas foi eliminado novamente nos pênaltis.
– Vieram as eliminações. Contra o Boca, coloca um pouco da cara dele. Linha mais baixa, proteção da zaga, ponteiros. Velocidade pelos lados. Foi uma fórmula meio clássica. Isso ocorreu muito na Bombonera. Nem foi tão reativo. Ficou com a bola. Mas já era um time com esta característica mais tradicional – aponta Sérgio Xavier Filho, comentarista do SporTV.
Apesar da queda, foi o início de uma sequência de seis vitórias seguidas (cinco pelo Brasileirão), com sete jogos de invencibilidade. Os números, aliás, são fiadores do trabalho. Abel comandou o Inter em nove compromissos. Acumula sete vitórias e duas derrotas, com um aproveitamento de 77,77%.

O fico

A evolução fez a direção se mexer. Apesar de toda reverência que recebe a cada declaração e a idolatria que tem, Abel nunca foi o técnico da preferência do presidente Alessandro Barcellos e seus pares. A nova gestão, inclusive, tem um acordo com Miguel Ángel Ramírez, embora evite comentar sobre o tema.
A diretoria, todavia, entendeu que uma nova alteração de treinador poderia atrapalhar os planos do time. Mesmo que fosse uma classificação entre os quatro do Brasileirão e consequente vaga à fase de grupos da Libertadores.
Abel fala sobre a decisão de permanecer no Inter e o restante da temporada






Barcellos e o vice de futebol João Patrício Herrmann conseguiram corrigir o ruído de comunicação no início e asseguraram Abel até o fim da temporada. A decisão o fará ser o técnico com mais jogos na história do Inter.
– O Abel conseguiu tirar o vestiário da depressão pós-Coudet em nome da ideia. O Coudet era hegemônico, tinha uma presença forte. Os jogadores gostavam dele. Então veio o resultado. Se seguissem deprimidos, não adiantaria – valoriza Diogo Olivier, comentarista do Grupo RBS.



Foi o primeiro grande gol da direção, o diálogo. No começo, parecia maluquice propor isso a um cara como o Abel. Isso foi encerrado. O Abel topou.
— Diogo Olivier, comentarista do Grupo RBS

Defesa mais protegida

A solidez defensiva é um dos principais trunfos de Abel. Contestado na “era Coudet”, o setor ficou menos exposto. Não joga mais tão adiantado. O técnico adota um posicionamento mais conservador, perto da área de Marcelo Lomba.
Rodrigo Moledo, que foi reserva de Bruno Fuchs e, posteriormente, Zé Gabriel, voltou a ser o parceiro de Víctor Cuesta. Suas atuações não apenas reafirmaram que tem vaga entre os 11 ideais como permitiram ao argentino crescer de produção.
– O Moledo só “zagueira”, beleza. Se não fosse a principal função do zagueiro destruir, até concordaria. E ele é um dos maiores destruidores do Brasil. A maior qualidade do técnico é aproveitar as características dos jogadores que tem em mãos. Os melhores são Moledo e Cuesta e, no meio, Dourado, Edenilson e Patrick. Não adianta inventar a roda – diz Arnaldo Ribeiro, comentarista do SporTV.

Abel no Brasileirão


6 jogos
5 vitórias
1 derrota
83,33% de aproveitamento
9 gols marcados
4 gols sofridos
Há outro trunfo para a evolução do sistema: a entrada de Rodrigo Dourado. Recuperado das duas cirurgias no joelho esquerdo, o capitão voltou a ser o protetor da zaga. Seu posicionamento passa segurança aos parceiros.
– Há a chegada do Dourado, finalmente entrando em forma física. É um volante muito bom, e para o estilo do Abel, quase que ideal. Tem boa capacidade, pegada boa, passe, a cabeça. Tudo faz ajudar. A “volância” foi um dos problemas. Musto e Lindoso não resolveram – ressalta Sérgio Xavier Filho.

Novo esquema e garotos

O tempo de trabalho também serviu como trunfo de Abelão. Com mais sessões de treino, colocou em cena seu sistema tático preferido, o 4-1-4-1, e apostou na velocidade.
Sem pontas no elenco, já que Coudet usava mais os laterais avançados, Abel buscou na base Caio Vidal. O garoto ganhou a titularidade e foi o protagonista na vitória por 2 a 0 sobre o Ceará no Castelão semana passada. Aliás, os meninos subiram na hierarquia.



Quando (Abel) chegou, estávamos em três competições, sem período real de treinamento. As oportunidades em cima do que desejava surgiram e resultaram no desempenho.
— Moisés, lateral-esquerdo do Inter

Praxedes virou fiel da balança no meio de campo do Inter — Foto: Ricardo Duarte/Divulgação, Inter
Praxedes virou fiel da balança no meio de campo do Inter — Foto: Ricardo Duarte/Divulgação, Inter
Se é verdade que o antigo técnico promoveu inúmeros jovens, foi com o atual comandante que ganharam prestígio. Praxedes é o elo do setor de criação junto a Edenilson e Patrick.
No último domingo, garantiu mais três pontos aos gaúchos, ao marcar o único gol da partida diante do Goiás, ao completar de cabeça o escanteio cobrado por Rodinei. Seu primeiro como profissional.
Outro garoto, mas este não lapidado nas categorias de base do clube, também ascendeu. Yuri Alberto, apesar de ainda ser reserva de Thiago Galhardo, é o artilheiro da “era Abel”. São cinco gols no período.

O ambiente no vestiário

Para construir esta caminhada, Abel contou com uma de suas principais virtudes: gerir um vestiário. O técnico se incomoda quando é chamado de “paizão”.

Abel Braga foi responsável pela ascensão do jovem Caio Vidal — Foto: Ricardo Duarte / Internacional
Abel Braga foi responsável pela ascensão do jovem Caio Vidal — Foto: Ricardo Duarte / Internacional
Repete que é justo e trabalha com verdade e conversa cara a cara. O estilo cativa os jogadores, que compram a ideia até nos momentos mais complicados.
– Todos os jogadores gostam do Abel. Talvez um ou outro até não goste de algum método, mas nunca ouvi alguém falar algo negativo na questão humana. Alguém com esse poder, marca, pode mobilizar, não só jogadores, mas todos em torno dele – declara Alexandre Lozetti, comentarista do SporTV.



Ele (Abel) tem o ambiente e o trato com os jogadores muito interessante. O paizão. Tem a história que tem no Inter. O jogador olha de forma diferente. Conquistou o mundo. Não é qualquer um.
— Arnaldo Ribeiro, comentarista do SporTV

Luta pelo título e futuro

Agora embalado no Brasileirão, o Inter segue na caça ao São Paulo. O duelo no Morumbi, marcado para 20 de janeiro, pode inclusive ter as equipes empatadas em pontos. Basta os gaúchos vencerem o Fortaleza no Beira-Rio e os comandados de Diniz perderem para o Athletico-PR na Arena da Baixada no domingo.
O que acontecer no fim da temporada pode deixar a diretoria de saia justa. Se Abel conquistar o nacional, terá o contrato renovado mesmo com o acordo atual com Ramírez? A pressão da torcida influenciará?
– Acho que não terá como tirá-lo. Se for campeão brasileiro, precisará ter rendimento. Por tudo o que o Abel representa, o título após 42 anos, com Covid-19 no meio do caminho, aceitando uma posição dessas, pelo clube. É quase impossível tirar. Acho que até o Ramírez aceita – avalia Xavier.

Abel Braga será o técnico com mais partidas pelo Inter — Foto: Ricardo Duarte/Divulgação, Inter
Abel Braga será o técnico com mais partidas pelo Inter — Foto: Ricardo Duarte/Divulgação, Inter



Se você olhar o futuro e onde o Inter quer chegar, em tese o Ramírez tem mais condição de algo constante, um padrão, uma formação de jogadores. Se por um acaso o Inter ganha, vai ser o mais doce problema, mas um baita problema.
— Arnaldo Ribeiro, comentarista do SporTV
Antes desacreditados, os fãs inundam as redes sociais com memes e brincadeiras para enaltecer o ídolo. Abelão tenta acabar com a fila de 42 anos do Inter sem o Brasileirão. Como os próprios torcedores brincam, “estão deixando sonhar”.




























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